Revisão do tema
Âncora de memorização: Sangramento na 1ª metade + colo fechado = ameaça de abortamento; colo aberto = abortamento (em evolução/incompleto). Beta-hCG crescente e ausência de dor intensa favorecem gestação intrauterina evolutiva.
Epidemiologia e Etiologia
- Frequência: Sangramento no 1º trimestre ocorre em até 20–25% das gestações; cerca de metade evolui bem.
- Etiologia principal: Sangramento de implantação e alterações cervicais benignas; causas patológicas incluem ameaça de abortamento, abortamento (em evolução/incompleto/completo) e gravidez ectópica.
- Por que importa: Diferenciar ameaça de abortamento (conduta expectante) de abortamento em curso (esvaziamento) e de ectópica (risco de choque/óbito).
Diagnóstico
- Ameaça de abortamento (definição): Sangramento vaginal antes de 20–22 semanas, colo uterino fechado, sem expulsão de conteúdo gestacional. Ultrassonografia transvaginal pode mostrar saco/embrião com ou sem batimentos, mas o critério clínico central é o colo fechado.
- Abortamento em evolução: Sangramento + colo aberto + cólicas; há expulsão iminente.
- Abortamento incompleto: Sangramento + colo aberto + eliminação parcial de restos; USG com material intrauterino remanescente.
- Gravidez ectópica: Dor abdominal, sangramento, escore de instabilidade; na USG transvaginal, ausência de gestação intrauterina quando o beta-hCG está acima da zona discriminatória (≈ 1.500–2.000 mUI/mL), achados anexiais (massa/gestação ectópica) e/ou líquido livre.
- Beta-hCG seriado: Em gestação intrauterina viável, costuma aumentar cerca de 66% em 48 h no início. No caso: 10.000 para 23.400 mUI/mL em 48 h (aumento adequado), sustentando viabilidade.
- Padrão-ouro para localização gestacional: Ultrassonografia transvaginal com visualização de saco gestacional intrauterino; essencial se beta-hCG ≥ 1.500–2.000 mUI/mL.
- Mini-exemplo: Sangramento leve + colo fechado + beta-hCG em ascensão = ameaça de abortamento (conduta expectante e USG para viabilidade).
Conduta & Posologia
- Conduta principal na ameaça de abortamento: Expectante: orientação, repouso relativo e abstinência sexual por 1–2 semanas, analgesia simples (dipirona), e ultrassonografia transvaginal em até 48–72 h para confirmar localização e viabilidade.
- Analgesia: Preferir Dipirona 500–1.000 mg VO 6/6–8/8 h se dor leve a moderada. Evitar anti-inflamatórios não esteroides no 1º trimestre quando possível.
- Progesterona: Não é rotina em ameaça de abortamento esporádica. Pode ser considerada em perda gestacional recorrente atribuída à insuficiência lútea: exemplo de uso (quando indicado por especialista) progesterona micronizada vaginal 200 mg 12/12 h até 12–16 semanas. Evidência para caso isolado é limitada.
- Critérios de internação: Instabilidade hemodinâmica, sangramento moderado/intenso com queda de Hb, dor intensa, suspeita de gravidez ectópica (dor súbita, sinais peritoneais, líquido livre) ou infecção.
- Seguimento e prazos: Reavaliar em 48–72 h com USG. Se sem USG disponível, repetir beta-hCG em 48 h. Orientar retorno imediato se aumentar sangramento, dor forte, lipotímia.
Discussão das alternativas
✅ B) Ameaça de aborto; repouso relativo.
Alternativa correta. Quadro típico: sangramento escasso na 1ª metade + colo fechado + beta-hCG em franca ascensão em 48 h. Conduta: expectante, repouso relativo, abstinência sexual breve, analgesia simples e USG transvaginal em 48–72 h para confirmar localização/viabilidade. Não há indicação de esvaziamento ou cirurgia.
❌ A) Gestação ectópica; laparotomia.
Alternativa incorreta. Ectópica costuma cursar com dor abdominal, sinais peritoneais ou instabilidade, e ausência de gestação intrauterina na USG quando beta-hCG ≥ 1.500–2.000 mUI/mL. O aumento adequado do beta-hCG favorece gestação intrauterina evolutiva. Laparotomia é reservada a ruptura/instabilidade; na maioria, o diagnóstico é por USG e o tratamento pode ser laparoscópico ou metotrexato quando estável e criteriosamente indicado.
❌ C) Aborto incompleto; curetagem uterina.
Alternativa incorreta. Aborto incompleto exige colo aberto e eliminação parcial de restos, frequentemente com sangramento moderado/intenso. Aqui o colo está fechado e o sangramento é escasso. Quando indicado, o método preferencial de esvaziamento no SUS é aspiração manual intrauterina; curetagem fica para cenários específicos.
❌ D) Aborto em evolução; acompanhamento clínico.
Alternativa incorreta. Aborto em evolução cursa com colo aberto e cólicas/sangramento progressivos, com necessidade de esvaziamento uterino se sangramento significativo ou instabilidade. No caso, o colo está fechado e o sangramento é leve, condizente com ameaça de abortamento; “acompanhamento clínico” isolado não descreve a conduta padrão (falta USG e orientações específicas).
Take-home message
- Sangramento no 1º trimestre com colo fechado = ameaça de abortamento; com colo aberto = abortamento (em evolução/incompleto).
- Beta-hCG ascendente em 48 h sustenta gestação intrauterina viável; confirmar com USG transvaginal se ≥ 1.500–2.000 mUI/mL.
- Conduta na ameaça: expectante, repouso relativo, abstinência sexual por 1–2 semanas, analgesia simples e reavaliação em 48–72 h com USG.
- Red flag: dor abdominal intensa, lipotímia ou sinais peritoneais → suspeitar de ectópica e encaminhar para serviço de urgência com USG à beira-leito.
- Evite anti-inflamatórios não esteroides no 1º trimestre; prefira dipirona 500–1.000 mg VO 6/6–8/8 h para dor leve.
- Progesterona não é rotina na ameaça isolada; considerar apenas em abortamento recorrente por provável insuficiência lútea.