Revisão do tema
Âncora de memorização (por que cai): Pós-exposição à raiva depende de: 1) espécie do animal; 2) possibilidade de observação (apenas cães e gatos por 10 dias); 3) gravidade da exposição; 4) histórico vacinal. Em herbívoros (ex.: bovinos), não há observação de 10 dias e a conduta é iniciar vacina imediatamente. Soro antirrábico é reservado para exposições graves.
Epidemiologia e Etiologia
- Brasil: Raiva humana é rara, mas letal. Transmissão ocorre por saliva de mamíferos infectados. Cães/gatos concentram a profilaxia urbana; morcegos e herbívoros (bovinos/equinos) mantêm risco em áreas rurais.
- Animal envolvido: Bovinos podem adoecer e transmitir raiva. A observação por 10 dias aplica-se somente a cães e gatos.
Diagnóstico (definições operacionais para PEP)
- Exposição: Contato de saliva/tecido nervoso com pele lesada ou mucosa. Mordedura com sangramento = exposição transdérmica.
- Classificação da gravidade (MS):
- Exposição leve: Arranhões/escoriações superficiais e únicas, fora de cabeça/pescoço/mãos/pés, sem mucosa, sem profundidade relevante.
- Exposição grave: Ferimentos profundos, múltiplos/extensos, em cabeça/pescoço/mãos/pés, lambedura de mucosa/ferida, ou qualquer mordedura transdérmica com maior gravidade. Em regra, indica-se soro + vacina em não vacinados.
- Observação do animal por 10 dias: Exclusiva para cães e gatos clinicamente saudáveis e passíveis de observação. Não se aplica a bovinos/equinos/silvestres.
Conduta & Posologia
- Higiene da ferida (sempre): Lavagem imediata e vigorosa com água e sabão por ≥15 minutos; irrigar abundantemente; aplicar antisséptico tópico (ex.: PVPI). Evitar sutura primária se possível. Avaliar antibiótico conforme risco de infecção bacteriana da mordedura.
- Vacina antirrábica humana (pós-exposição, esquema intramuscular): Esquema de 4 doses: Dias 0, 3, 7 e 14 (deltoide; em crianças pequenas, face ântero-lateral da coxa). Dia 0 = dia da 1ª dose.
- Imunoglobulina/soro antirrábico (apenas se exposição grave em não vacinados):
- Imunoglobulina humana: 20 UI/kg; infiltrar o máximo ao redor/dentro das feridas; restante via intramuscular em local distinto da vacina.
- Soro antirrábico equino: 40 UI/kg; mesmo princípio de infiltração.
- Este caso (mordida superficial única em antebraço por bovino, não vacinado): Iniciar imediatamente a vacina (esquema 0-3-7-14). Não há observação por 10 dias do bovino. Soro/imunoglobulina não é indicado na ausência de critérios de gravidade.
- Contraindicações: Não há contraindicação absoluta para vacina/IG em profilaxia pós-exposição, inclusive em gestantes e imunossuprimidos.
- Efeitos adversos relevantes: Dor local, febre baixa; reações alérgicas são raras. Monitorar anafilaxia na administração do soro equino.
- Critérios de encaminhamento/internação: Encaminhar se necessidade de debridamento amplo, feridas complexas em face/mãos, sinais de infecção grave, ou reação sistêmica ao soro equino. Reavaliar ferida em 48–72 horas.
- Interações/precauções: Não aplicar vacina e soro no mesmo local. Em imunossupressão grave, considerar esquema estendido e sorologia conforme protocolo local.
Discussão das alternativas
✅ C) iniciar imediatamente o esquema completo de vacinação antirrábica.
Alternativa correta. Para acidentes com bovinos, a observação de 10 dias não se aplica. Na ausência de critérios de gravidade, a conduta é iniciar vacina IM nos dias 0, 3, 7 e 14. O paciente é primovacinado e a ferida é superficial única em antebraço, sem sinais de gravidade que indiquem soro.
❌ A) observar o animal por 10 dias antes de decidir por qualquer intervenção adicional.
Alternativa incorreta. Observação por 10 dias é exclusiva para cães e gatos. Em herbívoros (bovinos), deve-se iniciar imediatamente a profilaxia humana, independentemente de observação.
❌ B) dispensar observação do animal e liberar o paciente sem vacina antirrábica.
Alternativa incorreta. Embora não haja observação em bovinos, não se libera sem profilaxia. A conduta correta é vacinar. Liberar sem vacina expõe a risco de doença letal.
❌ D) administrar imediatamente soro antirrábico.
Alternativa incorreta. Soro/imunoglobulina é indicado em exposição grave (ex.: múltiplas/profundas, cabeça/pescoço/mãos, mucosa). Neste caso, ferida superficial única em antebraço em primovacinado → vacina sem soro. Se houvesse gravidade, a dose seria 20 UI/kg (IG humana) ou 40 UI/kg (soro equino), infiltrando na ferida.
Take-home message
- Observação por 10 dias aplica-se somente a cães e gatos; não se aplica a bovinos/equinos.
- Acidente por bovino: iniciar vacina IM nos dias 0-3-7-14 imediatamente após higiene da ferida.
- Soro/imunoglobulina é para exposição grave em não vacinados (múltiplas/profundas, cabeça/pescoço/mãos, mucosa).
- Higienizar a ferida por ≥15 min com água e sabão; infiltrar IG/soro na ferida quando indicado; nunca no mesmo local da vacina.
- Red flag: Jamais postergar vacina aguardando observação de bovino.