Revisão do tema
Âncora de prova: Uretrorragia + hematoma perineal em “asa de borboleta” + retenção urinária = lesão uretral até prova em contrário. Nessa situação, é contraindicado tentar sondagem uretral; a via segura de descompressão é a cistostomia suprapúbica.
Epidemiologia e Etiologia
- Cenário típico: Traumas contusos do períneo (“queda em cavaleiro”, impacto em barra/andaime), acidentes com fratura pélvica e traumas penetrantes.
- Uretra anterior (bulbar/peniana): mais acometida em trauma perineal direto; manifesta hematoma em “asa de borboleta”.
- Por que importa: tentativas de sondagem podem converter lesão parcial em completa, aumentar sangramento, infecção e fibrose.
Diagnóstico
- Suspeita clínica (operacional): uretrorragia, incapacidade de urinar, globo vesical, hematoma perineal em asa de borboleta, próstata “alta” ao toque retal (em fraturas pélvicas).
- Padrão-ouro para uretra: Uretrografia retrógrada antes de qualquer tentativa de sondagem. Define localização/gravidade da lesão.
- Padrão-ouro para bexiga quando indicado: Cistografia retrógrada com contraste (adequada distensão), especialmente se hematúria macroscópica e trauma pélvico.
Conduta & Posologia
- Primeiro passo na suspeita de lesão uretral: NÃO passar sonda uretral. Estabilizar ABC do trauma.
- Descompressão imediata segura: Cistostomia suprapúbica por punção (técnica de Seldinger) quando há retenção/globo vesical.
- Técnica (resumo prático): analgesia/antissepsia; punção 1–2 cm acima da sínfise púbica, em linha média, bexiga cheia (ideal com ultrassonografia à beira-leito); introduzir fio-guia e dilatadores; posicionar cateter de cistostomia 12–16 Fr; fixar e drenar.
- Próximo passo diagnóstico: realizar uretrografia retrógrada após a derivação suprapúbica para estadiar a lesão e planejar manejo definitivo.
- Antibioticoprofilaxia: pode ser considerada periprocedimento conforme protocolo local de infecção do trato urinário associado a cateter; não substitui a conduta de derivação. (Sem diretriz brasileira única padronizada de fármaco/dose para trauma de uretra.)
- Critérios de internação: todo trauma uretral suspeito/confirmado; necessidade de derivação urinária; politrauma; sangramento significativo; sinais de infecção.
- Encaminhamento: avaliação urológica para decisão entre realinhamento endoscópico precoce vs reconstrução tardia, conforme tipo e extensão.
Discussão das alternativas
✅ B) Realização de cistostomia por punção.
Alternativa correta. Diante de uretrorragia, hematoma perineal em “asa de borboleta” e retenção com globo vesical, a conduta segura é derivação suprapúbica imediata e posterior uretrografia retrógrada. Evita-se iatrogenia da sondagem uretral. (Fonte: SBU/AMB – Diretrizes de Trauma Urológico).
❌ A) Passagem de sonda vesical de demora.
Alternativa incorreta. Contraindicada na suspeita de lesão uretral (uretrorragia/hematoma perineal). Pode agravar o trauma, causar falsa via e sangramento. O passo correto é cistostomia suprapúbica e uretrografia antes de qualquer tentativa de sondagem.
❌ C) Estímulo com diurético endovenoso.
Alternativa incorreta. Diurético não resolve obstrução mecânica e pode piorar dor/pressão intravesical. O problema é saída (uretra lesada), não produção de urina. Deve-se derivar por via suprapúbica.
❌ D) Incremento da hidratação venosa.
Alternativa incorreta. Hidratação isolada aumenta a diurese sem solucionar a obstrução uretral, prolongando distensão vesical e risco de lesão da parede. A medida correta é a cistostomia suprapúbica com posterior estadiamento por uretrografia.
Take-home message
- Uretrorragia + hematoma perineal em “asa de borboleta” + retenção = suspeita forte de lesão uretral.
- Red flag: NÃO tentar sondagem uretral na suspeita de lesão uretral.
- Conduta imediata: cistostomia suprapúbica por punção para descompressão vesical segura.
- Diagnóstico definitivo da uretra: uretrografia retrógrada antes de qualquer tentativa de sondagem.
- Internar e acionar Urologia para planejamento de realinhamento endoscópico vs reconstrução.