Revisão do tema
Âncora de memorização (por que cai): Distócia de ombros é emergência intraparto com risco de hipóxia e lesão do plexo braquial. A banca cobra a sequência correta das manobras: reconhecer (sinal da tartaruga), chamar ajuda, proibir tração e pressão no fundo uterino, iniciar McRoberts e pressão suprapúbica.
Epidemiologia e Etiologia
Incidência: ~0,2–3% dos partos vaginais; mais comum com macrossomia, diabetes mellitus, parto instrumental e segundo período prolongado. No Brasil, cenário típico envolve gestação a termo/tardio sem sinais prévios.
Mecanismo: Impactação do ombro anterior no púbis materno após a saída da cabeça, impedindo o desprendimento dos ombros.
Diagnóstico
Definição operacional: Dificuldade no desprendimento dos ombros após a exteriorização da cabeça, exigindo manobras adicionais.
Achado clássico: Sinal da tartaruga (retração da cabeça contra o períneo após a saída).
Critério prático de prova: Cabeça exteriorizada sem saída dos ombros + retração cefálica = distócia de ombros até prova em contrário.

Figura 1. Diâmetro biacromial no diâmetro anteroposterior da pelve. A: ombro anterior; B: ombro posterior.
Fonte: Zugaib, Marcelo. Zugaib Obstetrícia. 5ª ed. Editora Manole, 2023. Disponível em: VitalSource Bookshelf. Acesso em 15/07/2026.
Conduta & Posologia
Passos iniciais obrigatórios: Anunciar a emergência, chamar ajuda (obstetra, neonatologia), zerar cronômetro, não realizar tração forte da cabeça e não realizar pressão no fundo uterino.
Manobra de 1ª linha (McRoberts): Hiperflexão das coxas sobre o abdome materno em litotomia, retificando a pelve e aumentando o diâmetro ântero-posterior. Associar pressão suprapúbica dirigida póstero-lateral sobre o ombro anterior (técnica de Rubin I).
Se falhar: Sequência escalonada: 1) McRoberts + pressão suprapúbica; 2) Manobras internas (Rubin II: aduzir ombro anterior por pressão na face posterior do ombro; Woods para-rosquear); 3) Libertar ombro posterior (Jacquemier); 4) Outras (posição de Gaskin em quatro apoios). Episiotomia pode ser necessária para acesso às manobras internas, mas não resolve a impactação óssea isoladamente.

Figura 2. Assistência à distocia de biacromial.
Nota-se que o auxiliar promove hiperflexão e abdução da coxa (A: manobra de McRoberts) e, ao mesmo tempo, exerce pressão suprapúbica sobre o ombro anterior impactado (B: manobra de Rubin). São necessários dois auxiliares, um de cada lado da paciente, para correto posicionamento dos membros inferiores.
Fonte: Zugaib, Marcelo. Zugaib Obstetrícia. 5ª ed. Editora Manole, 2023. Disponível em: VitalSource Bookshelf. Acesso em 15/07/2026.
Evitar sempre: Pressão no fundo uterino (empurra o ombro mais contra o púbis) e tração cefálica vigorosa (risco de lesão do plexo braquial).
Documentação e tempo: Registrar horários, manobras e respostas. Idealmente resolver em minutos; preparar reanimação neonatal.
Critérios de encaminhamento/UTI materna-neonatal: Depende de intercorrências (hemorragia pós-parto, lacerações graves, acidose/índice de Apgar baixo), com avaliação conjunta obstetrícia-neonatologia.
Discussão das alternativas
✅ A) Reposicionar a paciente promovendo hiperflexão das pernas e das coxas.
Alternativa correta. É a manobra de McRoberts, conduta inicial recomendada na distócia de ombros, por aumentar o diâmetro funcional da pelve e facilitar a desimpactação do ombro anterior. Deve ser associada à pressão suprapúbica direcionada.
❌ B) Realizar tração forte e contínua no polo cefálico e pressão no fundo uterino.
Alternativa incorreta. Contraindicado. Tração vigorosa da cabeça aumenta risco de lesão do plexo braquial; pressão no fundo uterino piora a impactação do ombro anterior. A conduta é McRoberts + pressão suprapúbica, sem tração forçada.
❌ C) Introduzir a mão pelo vazio sacral e promover a adução do ombro anterior.
Alternativa incorreta. Descreve manobra interna do tipo Rubin II (pressão sobre a face posterior do ombro anterior para aduzi-lo), que é opção de segunda linha após falha de McRoberts + pressão suprapúbica.
❌ D) Realizar episiotomia medio-lateral ampla.
Alternativa incorreta. Episiotomia não resolve a impactação óssea da distócia de omros. Pode ser útil apenas para ampliar o acesso às manobras internas, não sendo a conduta inicial.
Take-home message
- Distócia de ombros: cabeça sai e retrai (sinal da tartaruga) + ombros não desprendem = emergência intraparto.
- Primeiro passo efetivo: McRoberts (hiperflexão das coxas) + pressão suprapúbica dirigida sobre ombro anterior (Rubin I).
- Se falhar: manobras internas em sequência (Rubin II, Woods, liberação do ombro posterior); episiotomia apenas para facilitar acesso.
- Red flag: Nunca tracionar fortemente a cabeça e nunca fazer pressão de fundo uterino.
- Chame ajuda, marque tempo e prepare equipe neonatal desde o reconhecimento do quadro.