Revisão do tema
Âncora de memorização (por que cai): Taquicardia + febre + alteração de comportamento em paciente com sinais de hipertireoidismo (perda de peso, tremor, sudorese, bócio) = suspeita de tireotoxicose grave/"tempestade tireotóxica". A primeira medida que reduz mortalidade e reverte rapidamente a instabilidade adrenérgica é o betabloqueador.
Epidemiologia e Etiologia
Brasil: Doença de Graves é a causa mais comum de hipertireoidismo em adultos jovens. Tempestade tireotóxica é rara, porém com alta mortalidade se não tratada precocemente.
Desencadeantes clássicos: Infecções, suspensão de antitireoidianos, cirurgia/trauma, uso de iodo, parto, abstinência/alcoholismo, eventos cardiovasculares.
Diagnóstico
Definição operacional: Tireotoxicose com descompensação sistêmica (hipertermia, taquicardia intensa, disfunção do sistema nervoso central, insuficiência cardíaca/arrítmias, sintomas gastrointestinais).
Critérios auxiliares (Burch-Wartofsky): Pontua febre, taquicardia (>140 bpm pontua alto), SNC (agitação/confusão), IC/FA e gatilho identificável. Escore >45 sugere tempestade.
Exames: Dosagens hormonais confirmam tireotoxicose (TSH suprimido, T4 livre/T3 elevados), mas o tratamento é imediato e não deve aguardar resultado laboratorial.

Figura 1. Escala de Burch-Wartofsky.
Fonte: Tá de Clinicagem. Tempestade Tireotóxica. Disponível em: https://www.tadeclinicagem.com.br/guia/146/tempestade-tireotoxica/. Acesso em 25/07/2026.
Mini-exemplo: Taquicardia sinusal persistente 150–160 bpm com confusão e febre em paciente com bócio = inicie betabloqueador antes de qualquer outra medida.
Conduta & Posologia
1) Betabloqueador (primeira medida): Propranolol VO 40–80 mg VO a cada 6/6h; alternativa EV se instável: 1 mg EV lento, repetir a cada 10 min até 3–5 mg conforme resposta. Esmolol EV: bolus 500 mcg/kg, seguido de 50–200 mcg/kg/min em bomba.
2) Antitireoidiano (iniciar logo após betabloqueador): Propiltiouracil (PTU) 200–250 mg VO a cada 4–6h (inibe também conversão T4→T3) ou Metimazol/Tiamazol 20–30 mg VO a cada 8/8h.
3) Iodo inorgânico (após 1 hora do antitireoidiano): Lugol 5% 5–10 gotas VO 8/8h (cada gota ≈ 6 mg de iodo) ou iodeto de potássio solução saturada 5 gotas VO 6–8/8h.
4) Corticoide: Hidrocortisona 100 mg EV 8/8h ou Dexametasona 2 mg EV 6/6h (reduz conversão T4→T3 e trata possível insuficiência adrenal relativa).
Suporte: Hidratação, controle térmico, correção de eletrólitos, tratar gatilho (culturas e antibiótico somente se há foco/sepse).
Ajustes/precauções: Asma/DPOC: preferir betabloqueador cardiosseletivo (metoprolol) em dose baixa e titular; IC descompensada/choque: avaliar esmolol em UTI com monitorização; Hepatopatia/alcoolismo: evitar PTU (risco de hepatotoxicidade), preferir metimazol; Gestação: PTU no 1º trimestre, metimazol após, mas em tempestade prioriza-se estabilização materna.
Efeitos adversos relevantes: Betabloqueador: bradicardia, broncoespasmo; PTU/metimazol: hepatotoxicidade, agranulocitose; Iodo: hipersensibilidade; Corticoide: hiperglicemia, infecção.
Critérios de internação/UTI: Todo caso com suspeita de tempestade: internação em UTI. Indicadores: FC >140 bpm, alteração de estado mental, IC/FA, T >38,5 °C, hipotensão, necessidade de drogas EV contínuas.
Monitorização e metas: Monitor cardíaco contínuo; reavaliar sinais vitais a cada 15–30 min até FC <100–110 bpm; ajustar betabloqueador conforme resposta clínica/PA.
Discussão das alternativas
✅ A) betabloqueador.
Alternativa correta. Taquicardia intensa, febre, tremor e confusão em paciente com bócio sugerem tempestade tireotóxica. A prioridade é bloquear o efeito adrenérgico e reduzir conversão periférica de tiroxina com betabloqueador. Propranolol VO 40–80 mg 6/6h (ou EV/esmolol em UTI) é a primeira intervenção, seguida de antitireoidiano, iodo e corticoide.
❌ B) benzodiazepínico.
Alternativa incorreta. Pode ser adjuvante para agitação, porém não trata a fisiopatologia da tempestade e não reduz mortalidade. O passo inicial é o betabloqueador; benzodiazepínico não substitui o controle adrenérgico/tiroideano.
❌ C) adenosina.
Alternativa incorreta. Indicada para taquicardia supraventricular por reentrada com QRS estreito e resposta ao bloqueio nodal. Aqui, o quadro é de taquicardia sinusal por hipermetabolismo; adenosina não é terapêutica e expõe a efeitos adversos sem benefício.
❌ D) antibioticoterapia.
Alternativa incorreta. Apesar da febre, não há foco infeccioso no caso. Em tempestade, febre é frequente por hipermetabolismo. Antibiótico empírico só se houver suspeita clínica/laboratorial de infecção. A conduta prioritária é o betabloqueio e o bloqueio da síntese/liberação hormonal.
Take-home message
- Tempestade tireotóxica = tireotoxicose com descompensação sistêmica (febre, FC >140, alteração de SNC, IC/FA); tratar sem aguardar exames.
- Primeiro passo: betabloqueador. Propranolol 40–80 mg VO 6/6h ou esmolol EV com titulação em UTI.
- Sequência que cai em prova: betabloqueador → antitireoidiano → (após 1h) iodo → corticoide, mais suporte.
- Red flag: Evite propiltiouracil em hepatopatia/alcoolismo; prefira metimazol e mantenha corticoide.
- Internar em UTI e monitorizar continuamente; meta inicial de FC <100–110 bpm e estabilização hemodinâmica.
- Antibiótico só com foco/sepse; benzodiazepínico é adjuvante para agitação, não terapia definitiva.