Revisão do tema
Âncora de memorização: Em agressão por cão ou gato saudável, vacinado e passível de observação, a profilaxia antirrábica humana é não iniciar vacina nem soro; observar o animal por 10 dias e notificar em até 24 horas no sistema de vigilância. Iniciar imediatamente somente se o animal adoecer, morrer ou se tornar não disponível.
Epidemiologia e Etiologia
Brasil: Raiva humana é rara e concentrada sobretudo por exposição a animais silvestres em algumas regiões; exposições por cães e gatos são as mais frequentes em unidades de urgência.
Transmissão: Inoculação do vírus rábico por mordedura/arranhadura/contato de saliva em mucosa ou pele lesada.
Vigilância: Todo atendimento antirrábico humano é de notificação compulsória imediata (até 24h) no SINAN; cães/gatos agressores devem ser observados por 10 dias.
Diagnóstico
Definição operacional de exposição: Contato que possibilite inoculação de vírus: mordedura/arranhadura com solução de continuidade, lambedura de mucosa/pele lesada.
Classificação do animal agressor:
• Cão/gato saudável e observável: observar 10 dias. Sem vacina/soro iniciais.
• Cão/gato doente, morto, desaparecido ou não observável: iniciar vacina (e soro se exposição grave).
• Animal silvestre (morcego, raposa, etc.): iniciar imediatamente vacina + considerar soro conforme gravidade.
Cuidados locais imediatos (padrão-ouro de prevenção): Lavar vigorosamente o ferimento com água e sabão/detergente por 5–10 minutos; debridar se necessário.
Conduta & Posologia
Cenário do caso (cão saudável, vacinado e observável): Não iniciar vacina nem soro; observar o cão por 10 dias. Se o animal permanecer sadio, encerrar. Se adoecer/morrer/desaparecer, iniciar imediatamente profilaxia.
Vacina antirrábica (se indicada):
• Vacinas de cultivo celular (preferenciais no SUS). Esquema pós-exposição: dias 0, 3, 7 e 14 por via intramuscular no deltoide (criança: face ântero-lateral da coxa se necessário).
• Dose usual PVRV (verocélulas): 0,5 mL IM por dose. Se PCECV: 1,0 mL IM por dose.
Imunoglobulina/soro antirrábico (se exposição grave):
• Imunoglobulina humana: 20 UI/kg; Soro equino purificado (F(ab')2): 40 UI/kg.
• Técnica: Infiltrar o máximo do volume ao redor e dentro dos ferimentos; o restante IM em local distante do sítio da vacina. Administrar preferencialmente no dia 0, com a primeira dose da vacina.
Indicações de soro/imunoglobulina (exposição grave): Múltiplas mordeduras; ferimentos em cabeça, pescoço, mãos, face, genitália; feridas profundas/lacerantes; lambedura de mucosa ou pele lesada.
Contraindicações relevantes: Não há contraindicação absoluta para PEP (inclui gestação e lactação). Evitar infiltrar soro em dedos com risco de compartimental; dividir o volume e infiltrar delicadamente ao redor.
Efeitos adversos relevantes: Dor local, febre baixa, cefaleia (vacina); reações de hipersensibilidade imediata/tardia (soro equino) — ter suporte para anafilaxia.
Interações/condutas: Não coadministrar vacina e soro no mesmo local/seringa. Evitar corticoterapia sistêmica/imunossupressores durante o esquema; se necessário, programar sorologia de anticorpos antirrábicos após o esquema.
Outras medidas do caso: Profilaxia do tétano conforme calendário; antibiótico para mordedura de mão se ferida profunda/contaminada (cobrir Pasteurella e anaeróbios); curativo e reavaliação em 48–72h.
Vigilância epidemiológica: Registrar Atendimento Antirrábico Humano no SINAN em até 24 horas. Observar o animal por 10 dias com acompanhamento pela vigilância; se sinais neurológicos, interromper observação, adotar medidas sanitárias e iniciar PEP no paciente.
Critérios de internação vs ambulatorial: Geralmente ambulatorial. Internar se ferimentos complexos com necessidade cirúrgica, infecção grave ou reação sistêmica importante ao soro.
Discussão das alternativas
✅ A) Observar a criança, não administrar vacina ou soro antirrábico e notificar em até 24h da exposição.
Alternativa correta. Para cão saudável, vacinado e passível de observação, a conduta é não iniciar PEP e observar o animal por 10 dias. A vigilância exige notificação imediata (até 24h) do atendimento antirrábico humano no SINAN. Se o animal adoecer/morrer/desaparecer, iniciar vacina (e soro se exposição grave) prontamente.
❌ B) Administrar dose única de vacina antirrábica à criança e realizar notificação imediata do agravo.
Alternativa incorreta. Não existe esquema de dose única para profilaxia pós-exposição. Quando indicada, a vacina é em 4 doses IM nos dias 0, 3, 7 e 14. Além disso, neste cenário a PEP não é iniciada de rotina.
❌ C) Administrar o soro antirrábico à criança e notificar em até 24h da exposição.
Alternativa incorreta. Soro/imunoglobulina é reservado a exposição grave quando a PEP é indicada. Com cão saudável e observável, não se inicia soro nem vacina. Correto manter a notificação imediata, mas o uso de soro aqui é indevido.
❌ D) Realizar profilaxia com soro antirrábico, vacinação nos dias 0, 3, 7 e 14 e notificação imediata do agravo.
Alternativa incorreta. O esquema descrito é o de PEP para exposições indicadas; porém, com cão saudável, vacinado e observável, a recomendação do Ministério da Saúde é não iniciar vacina nem soro e apenas observar o animal por 10 dias, com notificação do atendimento.
Take-home message
- Cão/gato saudável e observável: não iniciar PEP; observar 10 dias e notificar o atendimento em até 24h.
- Se o animal adoecer/morrer/desaparecer: iniciar vacina 0, 3, 7, 14 (0,5 mL IM PVRV) e adicionar soro se exposição grave.
- Soro/imunoglobulina: 20 UI/kg (humana) ou 40 UI/kg (equina), infiltrando ao redor da ferida, no dia 0.
- Red flag: Animal silvestre ou cão/gato não observável exige início imediato de PEP.
- Lavar a ferida por 5–10 min é medida crítica que reduz inoculação viral; avaliar tétano e antibiótico (mordedura em mão).
- PEP não tem contraindicação absoluta (inclui gestantes); não aplicar vacina e soro no mesmo sítio.