Revisão do tema
Âncora de memorização: PEP para HIV só tem indicação até 72 horas após a exposição ocupacional. Após esse limite, a conduta é acompanhamento sorológico e medidas complementares; não iniciar antirretrovirais.
Epidemiologia e Etiologia
Cenário no Brasil: Acidentes com material biológico são frequentes na Atenção Primária. Risco ocupacional de HIV em perfurocortante é baixo (estimado <0,5%), porém prevenível quando PEP é iniciada até 72h.
Exposição relevante: Perfuração percutânea com agulha oca, previamente usada e com possível sangue do paciente-fonte.
Diagnóstico
Definição operacional de exposição ocupacional de risco para HIV: contato percutâneo, mucoso ou cutâneo não íntegro com sangue, sêmen, secreções retais ou vaginais, leite materno ou outros fluidos potencialmente contaminados.
Janela terapêutica da PEP (padrão-ouro de indicação temporal): iniciar o mais precoce possível, até 72 horas após a exposição. Após 72 horas, não indicar PEP.
Estratificação imediata: avaliar tipo de exposição, material (agulha oca vs maciça), status sorológico do paciente-fonte (teste rápido) e do acidentado (teste rápido basal).
Conduta & Posologia
Caso do enunciado (apresentação em 96h): Sem indicação de PEP para HIV. Realizar testes rápidos de HIV no profissional (basal) e, se possível, no paciente-fonte. Programar sorologias de seguimento.
Se estivesse dentro de 72h (para prova): Esquema preferencial por 28 dias: Tenofovir 300 mg + Lamivudina 300 mg VO 1x/dia + Dolutegravir 50 mg VO 1x/dia, por 28 dias.
Ajustes e cautelas: Em doença renal crônica com taxa de filtração glomerular <50 mL/min, evitar Tenofovir ou ajustar conforme PCDT; em hepatopatias avançadas, monitorar transaminases.
Efeitos adversos relevantes dos ARV: náuseas, cefaleia, insônia (dolutegravir), elevação transitória de transaminases; monitorar adesão e tolerabilidade semanalmente no primeiro mês.
Medidas complementares (sempre): atualizar esquema de hepatite B (testar anti-HBs; se não vacinado/inadequadamente vacinado, vacinar; imunoglobulina anti-HB até 7 dias se fonte HBsAg positiva e trabalhador suscetível). Para hepatite C: não há PEP; acompanhar com HCV-RNA (4–6 semanas) e anti-HCV (12 e 24 semanas).
Seguimento sorológico para HIV (após exposição sem PEP): teste basal imediato e reavaliações em 30 e 90 dias (testes de 4ª geração quando disponíveis). Orientar uso de preservativos até final do seguimento.
Critérios de encaminhamento/urgência: Exposição múltipla de alto risco, gestantes, coinfecções, falha de acesso a insumos ou dúvidas diagnósticas – avaliar em serviço de referência em até 24–48h.
Discussão das alternativas
✅ C) Realizar acompanhamento sorológico de HIV para o profissional. Sem indicação de PEP para a exposição atual.
Alternativa correta. Conduta alinhada ao PCDT/Ministério da Saúde: após 72h, não iniciar PEP. Fazer teste basal de HIV e repetir em 30 e 90 dias; avaliar vacinação para hepatite B e acompanhamento para hepatite C.
❌ A) Fazer o teste rápido para HIV no profissional. Se o resultado for negativo, iniciar PEP. Não é necessário testar o usuário.
Alternativa incorreta. Erra em dois pontos: 1) a PEP não deve ser iniciada após 72 horas; 2) sempre que possível, deve-se testar o paciente-fonte para orientar o risco. Correção: com 96h, não indicar PEP; testar profissional e fonte e seguir vigilância.
❌ B) Fazer o teste rápido para HIV no profissional e no usuário. Se o usuário testar positivo, indicar PEP para o profissional.
Alternativa incorreta. Embora o teste no profissional e na fonte seja correto, a indicação de PEP está equivocada pelo tempo decorrido (>72h). Mesmo com fonte positiva, não iniciar PEP após 72h; proceder com seguimento sorológico e orientações.
❌ D) Indicar PEP para o profissional sem realizar teste rápido para HIV, devido ao tempo decorrido desde a exposição.
Alternativa incorreta. Contraria a diretriz: o tempo maior que 72h é justamente um critério para não iniciar PEP. Além disso, sempre se realiza teste basal no acidentado. Correção: sem PEP; testes e seguimento.
Take-home message
- PEP para HIV só é indicada até 72 horas após a exposição ocupacional; passado esse prazo, não iniciar.
- Seguimento sorológico: HIV basal e em 30 e 90 dias; orientar preservativo até alta do seguimento.
- Se dentro de 72h, esquema preferencial por 28 dias: Tenofovir 300 mg + Lamivudina 300 mg 1x/dia + Dolutegravir 50 mg 1x/dia.
- Red flag: Não inicie PEP após 72h, mesmo se a fonte for positiva.
- Sempre testar o paciente-fonte quando possível; isso orienta risco e evita PEP desnecessária.
- Não esquecer hepatites: verificar vacina de hepatite B e considerar imunoglobulina até 7 dias se suscetível e fonte HBsAg positiva; para HCV, sem PEP, apenas seguimento.