Revisão do tema
Âncora de memorização: O índice de vulnerabilidade clínico-funcional (IVCF-20) é o instrumento recomendado na Atenção Primária à Saúde para triagem rápida de risco de declínio funcional em pessoas idosas no Brasil.
Epidemiologia e Etiologia
Envelhecimento populacional no Brasil aumenta a prevalência de multimorbidade, polifarmácia e limitações funcionais; a detecção precoce de vulnerabilidade na Unidade Básica de Saúde é prioritária.
O IVCF-20 foi validado nacionalmente, de aplicação breve (≈5–10 min) e direciona a necessidade de avaliação geriátrica ampla.
Diagnóstico
O que é: Escala de 20 itens distribuídos em domínios: idade, autopercepção de saúde, cognição (queixa de memória), humor, mobilidade/marcha, comunicação (visão/ audição), continência, nutrição/perda ponderal, comorbidades, uso de medicamentos (polifarmácia), desempenho em atividades de vida diária (AVD) e atividades instrumentais (AIVD), quedas e uso recente de serviços (internação/urgência).
Por que importa: Escore estratifica risco de declínio funcional e norteia encaminhamento/seguimento na Atenção Primária vs atenção especializada.
Como identificar (definições operacionais relevantes):
Polifarmácia: uso de 5 ou mais medicamentos de uso contínuo.
Queixa de memória: autorrelato ou relato do familiar de esquecimentos (sugere vulnerabilidade cognitiva).
AIVD (ex.: limpar a casa, fazer compras, usar transporte): dificuldade/ dependência pontua vulnerabilidade funcional.
Quedas: ocorrência no último ano; queda com fratura aumenta gravidade.
Internação/urgência: uso nos últimos 6 meses agrega risco.
Perda de peso: perda não intencional recente é marcador nutricional negativo (IMC isolado não pontua).
Escore e estratificação (faixas usuais na APS): 0–6 baixo risco; 7–14 risco moderado; ≥15 alto risco. Mais pontos indicam maior probabilidade de declínio funcional e necessidade de avaliação geriátrica abrangente.
Aplicação ao caso (mini-exemplo): Idosa com polifarmácia (≥5 fármacos), queixa de memória e dificuldade em AIVD (não limpar a casa) já acumula itens-chave do IVCF-20 compatíveis com risco ≥ moderado, exigindo plano multidimensional.
Conduta
Próximo passo na UBS: Aplicar o IVCF-20 completo na mesma consulta, somar escore e documentar.
Estratégia por estrato:
• Baixo risco (0–6): educação em saúde, exercícios, revisão medicamentosa anual; reavaliar em 6–12 meses.
• Risco moderado (7–14): iniciar Plano de Cuidado Multiprofissional (fisioterapia para mobilidade, educação para quedas, revisão de polifarmácia, triagem cognitiva breve); reavaliar em 3–6 meses.
• Alto risco (≥15): encaminhar para avaliação geriátrica ampla, manejo intensivo de quedas, nutrição e suporte social; contato precoce com NASF-AB/serviços especializados.
Componentes essenciais do cuidado: revisão de medicamentos com foco em potencialmente inapropriados, exercícios de equilíbrio/força, adequações domiciliares, manejo de comorbidades e rastreio de depressão e demência.
Critérios de encaminhamento/urgência: Delirium, queda recente com fratura, perda ponderal acelerada, incontinência súbita, dependência rápida em AVD ou escore ≥15.
Discussão das alternativas
✅ A) Polifarmácia, esquecimento e não conseguir limpar a casa.
Alternativa correta. O IVCF-20 inclui: polifarmácia (≥5 medicamentos), queixa de memória (domínio cognitivo) e dificuldade em atividade instrumental de vida diária como “limpar a casa”. Esses três itens pontuam na estratificação do risco de declínio funcional conforme o instrumento adotado na APS brasileira.
❌ B) Idade, hipertensão mal controlada e usar bengala.
Alternativa incorreta. A idade é item do IVCF-20, porém “hipertensão mal controlada” não é item específico (o que pontua é o número de comorbidades e descompensações recentes), e “usar bengala” não é item direto (o domínio é mobilidade/marcha, não a utilização do dispositivo em si).
❌ C) Fratura de fêmur, internação e portar doenças crônicas.
Alternativa incorreta. “Internação recente” e “comorbidades” pontuam; entretanto “fratura de fêmur” só é contemplada no contexto de queda no último ano (especialmente com fratura). No caso, a fratura ocorreu há 1 ano com cirurgia prévia; fora de janelas temporais usuais do instrumento, não pontua necessariamente como item isolado.
❌ D) Cirurgia ortopédica, IMC e apresentar histórico de queda.
Alternativa incorreta. “Histórico de queda” é item do IVCF-20; entretanto “cirurgia ortopédica” não é item específico, e “IMC” isolado não pontua (o que pontua é perda ponderal não intencional recente, marcador nutricional do instrumento).
Take-home message
- IVCF-20 é a triagem oficial na APS para vulnerabilidade da pessoa idosa e direciona avaliação geriátrica ampla.
- Itens que pontuam no caso: polifarmácia, queixa de memória e dificuldade em AIVD (ex.: não limpar a casa).
- Cuidado: IMC isolado, uso de bengala e “HAS mal controlada” não são itens diretos do IVCF-20.
- Red flag: queda recente (especialmente com fratura), delirium ou perda de peso rápida exigem ação imediata e possível encaminhamento.
- Estratos de risco usuais: 0–6 baixo, 7–14 moderado, ≥15 alto risco de declínio funcional.
- Próximo passo: aplicar o IVCF-20 completo, somar escore e definir plano multiprofissional/encaminhamento conforme faixa.