Revisão do tema
Âncora de memorização (por que cai na prova): Idosa com possível declínio cognitivo agudo/subagudo e vulnerabilidade social exige abordagem territorial, visita domiciliar e plano de cuidado compartilhado (Projeto Terapêutico Singular) pela equipe de Atenção Primária à Saúde, conforme Política Nacional de Atenção Básica.
Epidemiologia e Etiologia
Contexto brasileiro: Altas prevalências de multimorbidade e polifarmácia em idosos no SUS. Vulnerabilidade social aumenta risco de descompensação clínica e de eventos agudos (delirium) e piora de demências.
Possíveis causas no caso: Delirium (confusão aguda por causa clínica reversível), demência com piora comportamental, descompensações de diabetes e hipertensão, efeitos adversos/erros de medicação, má nutrição.
Determinantes sociais: Desorganização domiciliar, falta de alimentos e medicamentos vencidos indicam risco social e necessidade de intervenção intersetorial (CRAS/assistência social).
Diagnóstico
Definições operacionais: Delirium = alteração aguda ou flutuante de atenção/consciência com pensamento desorganizado; Demência = declínio cognitivo progressivo que compromete funcionalidade.
Identificação na APS (padrão de prova):
• Rastreamento cognitivo no domicílio: Mini-Cog ou Mini Exame do Estado Mental (MEEM) com escolaridade ajustada.
• Rastreamento de delirium: Confusion Assessment Method (CAM) à beira-leito.
• Avaliação clínica imediata: sinais vitais, glicemia capilar, revisão de caixa de medicamentos, hidratação, infecção (urina, respiratório), risco de queda e segurança domiciliar.
Sinal de alerta: Confusão mental de instalação recente + flutuação + inatenção sugere delirium, que é urgência diagnóstica para busca de causa reversível.
Conduta & Posologia
Próximo passo prioritário (técnica): Visita domiciliar compartilhada em até 48–72 horas com médico e Agente Comunitária de Saúde; se possível, incluir enfermeiro(a)/assistente social. Aplicar CAM/Mini-Cog, aferir pressão arterial, glicemia capilar, revisão medicamentosa item a item e avaliação ambiental.
Plano terapêutico singular (PTS): Construir com a família/cuidador: definir responsável de referência, calendário de consultas, organização de medicação (caixa semanal), reforço de alimentação e hidratação, pactuar monitorização (PA e glicemia) e sinais de alarme.
Intersetorialidade: Acionar Núcleo Ampliado de Saúde da Família e Atenção Básica (NASF-AB ou equipe de apoio) e CRAS para suporte social, quando disponível.
Encaminhamentos/Exames: Se CAM positivo ou suspeita clínica de causa aguda (infecção, hipoglicemia/hiperglicemia, efeitos adversos), providenciar avaliação médica no mesmo dia (UBS/UPA), exames básicos (hemograma, eletrólitos, função renal, urina tipo 1, glicemia), e tratar a causa.
Critérios de UTI/hospital vs ambulatorial: Encaminhar serviço de urgência se: rebaixamento de consciência, sinais de sepse, hipoglicemia (<54 mg/dL) ou hiperglicemia grave (cetose, desidratação), hipertensão grave sintomática, desidratação importante, risco iminente de auto/heteroagressão, ausência total de suporte em casa.
Tempo de reavaliação: Reavaliar em 48–72h após a intervenção inicial; se delirium, reavaliar diariamente até estabilizar. Agendar consulta clínica presencial prioritária após a VD, com dados territoriais incorporados.
Armadilhas de prova: Não postergar avaliação para 30 dias; não delegar exclusivamente à ACS orientações sem avaliação clínica compartilhada; evitar medicalização sem avaliação do contexto domiciliar.
Discussão das alternativas
✅ B) priorizar visita domiciliar com médico e ACS para avaliação da paciente em seu contexto, considerando os aspectos clínicos e territoriais observados durante a visita na elaboração do plano de cuidados.
Alternativa correta. É a conduta alinhada à PNAB: abordagem interdisciplinar, territorial e centrada na família/domicílio, integrando achados clínicos e sociais na elaboração do Projeto Terapêutico Singular e permitindo identificar rapidamente causas reversíveis de confusão (delirium) e barreiras de adesão.
❌ A) agendar consulta médica prioritária para avaliação clínica da paciente, solicitando à ACS realizar busca ativa e compartilhar previamente com o médico as informações sobre contexto domiciliar para subsidiar a consulta.
Alternativa incorreta. Há prioridade clínica e social, mas falta a visita domiciliar compartilhada para avaliação in loco e construção do plano singular. A PNAB orienta atuação interdisciplinar no território quando há vulnerabilidade e risco, não apenas antecipar consulta na UBS com relato indireto.
❌ C) definir que a ACS intensifique visitas para orientações sobre medicamentos e organização do ambiente, enquanto o médico avalia necessidade de ajustes terapêuticos no retorno agendado em 30 dias.
Alternativa incorreta. Postergar avaliação médica por 30 dias diante de possível delirium/descompensações é inadequado e arriscado. Além disso, delega abordagem complexa apenas à ACS, sem suporte clínico imediato e sem PTS compartilhado.
❌ D) acordar que o médico realize visita domiciliar para avaliação clínica e definição terapêutica, cabendo à ACS acompanhar a adesão medicamentosa e monitorar parâmetros pressóricos nos intervalos das consultas médicas.
Alternativa incorreta. Reduz a integralidade e a interdisciplinaridade: transforma a VD em ato médico isolado. A diretriz preconiza VD compartilhada e construção conjunta do cuidado, não mera divisão sequencial de tarefas.
Take-home message
- Idoso com confusão + vulnerabilidade social: prioridade é visita domiciliar compartilhada e Projeto Terapêutico Singular.
- Na VD: aplicar CAM/Mini-Cog, aferir PA e glicemia, revisar medicamentos e ambiente, envolver família/cuidador.
- Intersetorialidade conta: acionar NASF-AB/equipe de apoio e CRAS quando houver risco social.
- Red flag: delirium suspeito exige avaliação clínica no mesmo dia e busca ativa de causa reversível.
- Não postergar: reavaliar em 48–72h e ajustar cuidado conforme resposta clínica e suporte social.