Revisão do tema
Âncora de memorização: Doença mão-pé-boca (DMPB) é quadro clínico por enterovírus (Coxsackie A16, A6; EV-A71), com enantema oral doloroso e exantema vesicular em palmas/plantas; geralmente autolimitada, mas EV-A71 pode cursar com complicações neurológicas/cardiacas.
- O que é: Infecção viral infantil com estomatite ulcerada e lesões papulovesiculares em mãos e pés; pode haver nádegas/perianal.
- Por que importa: Maioria benigna; porém encefalite, meningite, miocardite e edema pulmonar neurogênico (sobretudo por EV-A71) exigem reconhecimento precoce.
- Como identificar: Incubação 3–6 dias; febre baixa por 2–3 dias, dor oral/recusa alimentar; vesículas/úlceras em língua, mucosa jugal, pilares; exantema vesicular em palmas/plantas (às vezes nádegas).
- Diagnóstico: Clínico. Exames/labortestes (PCR) reservados a surtos/gravidade.
- Diferenciais-chave: Estomatite herpética (gengivite intensa, lesões difusas, halitose), varicela (lesões em vários estágios no tronco), herpangina (lesões orais posteriores sem exantema palmo-plantar), impetigo bolhoso.
- Evolução: Febre cessa em 2–3 dias; lesões cutâneas e orais resolvem em ~7–10 dias; onicomadese tardia pode ocorrer.
Conduta & Posologia
- Tratamento de suporte: Hidratação oral vigorosa, alimentação fria/macia; não há antiviral específico.
- Analgésico/antitérmico (1ª linha): Paracetamol 10–15 mg/kg/dose VO a cada 4–6 h (máx. 60 mg/kg/dia).
- AINE (se > 6 meses e sem desidratação/DRC): Ibuprofeno 5–10 mg/kg/dose VO a cada 6–8 h (máx. 30 mg/kg/dia).
- Ajustes/precauções: Paracetamol: reduzir dose e monitorar em hepatopatia/Child-Pugh B–C; Ibuprofeno: evitar em DRC, desidratação, sangramento GI.
- Contraindicações/evitar:
- AAS (Risco de Reye);
- anestésicos tópicos orais (lidocaína/benzocaína) em lactentes pelo risco de convulsão/metemoglobinemia;
- antibióticos e antivirais não têm indicação.
- Medidas de controle: Higiene das mãos; descartar fraldas com cuidado; evitar contato próximo durante febre; retorno à creche quando afebril, bom estado geral e sem hipersalivação/úlceras muito dolorosas.
- Critérios de internação: Desidratação moderada/grave (diurese reduzida, letargia), incapacidade de via oral, sinais neurológicos (sonolência extrema, ataxia, tremores, mioclonias, vômitos incoercíveis), taquicardia/taquipneia, hipertensão, extremidades frias, suspeita de miocardite/encefalite ou lactentes muito jovens sem suporte domiciliar.
- Seguimento/alertas: Reavaliar em 24–48 h se recusa alimentar persistir. Procurar UE se surgirem red flags neurológicas/cardiopulmonares.
Discussão das alternativas:
❌ A) a evolução da doença é benigna, mas está indicada internação, pela frequência elevada de complicações.
Alternativa incorreta. A evolução é benigna e ambulatorial na maioria. A internação é seletiva (desidratação, sinais neurológicos/cardiacos). As complicações são incomuns, não justificando internação de rotina.
✅ B) as complicações neurológicas e cardiológicas, como encefalite, miocardite e pericardite, podem ocorrer.
Alternativa correta. A DMPB é usualmente benigna, mas EV-A71 e alguns Coxsackie podem causar meningite asséptica, encefalite, ataxia e miocardite/pericardite. É informação-chave para orientação da família sobre sinais de alarme e quando retornar ao serviço.
❌ C) a localização das lesões descrita no caso é atípica, sendo mais comum em nádegas e região perianal.
Alternativa incorreta. O padrão típico é palmas, plantas e cavidade oral. Lesões em nádegas/perianal podem ocorrer, sobretudo em lactentes, mas não são o sítio mais comum.
❌ D) o desaparecimento da febre e das lesões de pele costuma ocorrer após 5 a 7 dias do início do quadro.
Alternativa incorreta. A febre usualmente cessa em 2–3 dias, enquanto as lesões cutâneas/orais resolvem em 7–10 dias. A frase conflui ambos os desfechos para 5–7 dias, o que é impreciso para orientar a família.
Take-home message
- DMPB: diagnóstico é clínico; enantema oral + exantema vesicular em palmas/plantas define o quadro típico.
- Complicações graves (encefalite, miocardite) são raras, mas possíveis; orientar sinais de alarme e hidratação.
- Suporte: Paracetamol 10–15 mg/kg/dose VO 4–6/6 h; Ibuprofeno se >6 meses 5–10 mg/kg/dose 6–8/8 h.
- Red flag: desidratação, vômitos incoercíveis, sonolência extrema, ataxia, taquicardia/taquipneia → avaliar internação.
- Febre dura 2–3 dias; lesões resolvem em 7–10 dias; curso geralmente benigno e ambulatorial.
- Evitar: AAS e anestésicos tópicos orais (lidocaína/benzocaína) em lactentes.