Revisão do tema
Âncora de memorização (por que cai): TCE leve (GCS 13–15) em idoso com perda de consciência e cefaleia exige TC de crânio e observação hospitalar. UBS sem tomografia deve estabilizar, controlar hemorragia, suturar e transferir para hospital com TC/neurocirurgia.
O que é: TCE leve com fatores de alto risco (idade ≥65 anos, perda de consciência, GCS 13, cefaleia) — maior probabilidade de hemorragia intracraniana.
Por que importa: Idosos têm atrofia cerebral e uso frequente de antiagregantes/anticoagulantes; hematomas podem ser tardios e inicialmente paucissintomáticos.
Como identificar: Critérios de TC imediata: idade ≥65, perda de consciência, GCS <15 persistente, cefaleia/vômitos, sinais de fratura de base, uso de anticoagulantes, déficit focal.
Como manejar na UBS: ABCDE, controle de sangramento (curativo compressivo), anestesia local, limpeza e sutura da ferida do couro cabeludo, profilaxia antitetânica e transferência regulada para hospital de trauma (TC/neurocirurgia).
Conduta & Posologia
- Hemostasia e sutura: Curativo compressivo imediato; irrigação abundante com SF 0,9%; fechamento com grampos de pele ou nylon 3-0/4-0 após anestesia local.
- Anestesia local (lidocaína 1%): Máx sem adrenalina 4,5 mg/kg (máx ~300 mg); com adrenalina 7 mg/kg. Preferir com adrenalina no couro cabeludo para melhor hemostasia. Evitar intravascular.
- Profilaxia antitetânica: Se esquema desconhecido/incompleto e ferida tetanogênica: dT 0,5 mL IM + IG antitetânica 250 UI IM (uma dose). Se esquema completo (≥3 doses) e ferida limpa: apenas reforço se >10 anos.
- Analgésicos de primeira linha:
- Dipirona 1 g VO/IV 6–8/8h PRN;
- Paracetamol 750–1000 mg VO 6–8/8h (máx 3 g/dia em idoso).
- Evitar AINEs/AAS no TCE agudo pelo risco de sangramento.
- Antibiótico: Feridas de couro cabeludo limpas não requerem rotina; se contaminada/mordedura: Cefalexina 500 mg VO 6/6h por 5–7 dias ou Amoxicilina-clavulanato 875/125 mg VO 12/12h.
- Ajustes e cautelas:
- Cefalexina: reduzir dose se TFGe <50 mL/min.
- Paracetamol: reduzir em hepatopatia/baixo peso.
- Lidocaína: somar todas as fontes para não exceder dose máxima.
- Critérios de transferência/internação: Transferir se necessidade de TC não disponível, GCS <15 após 2 h, idade ≥65 com sintomas, perda de consciência, vômitos, déficit focal, sinais de fratura, uso de anticoagulantes/antiagregantes, convulsão pós-trauma.
- Tempo de observação/hospital: TCE leve com fatores de risco: observar em ambiente hospitalar por 6–24 h, mesmo com TC normal se alto risco clínico (idoso/anticoagulado).
Discussão das alternativas
❌ A) Sutura e observação domiciliar.
Alternativa incorreta. Há fatores de alto risco (idoso, perda de consciência, GCS 13, cefaleia). Necessita TC de crânio e observação hospitalar. Alta domiciliar é insegura.
❌ B) Curativo compressivo e observação domiciliar.
Alternativa incorreta. Além de inadequada pela mesma razão da A, não tratar a ferida (sem sutura) mantém sangramento/risco de anemia e infecção.
❌ C) Curativo compressivo e radiografia de crânio.
Alternativa incorreta. Radiografia de crânio é obsoleta para TCE leve e não avalia hemorragia intracraniana. O exame indicado é TC de crânio sem contraste.
✅ D) Sutura e transferência para hospital de trauma.
Alternativa correta. Na UBS: estabilizar, controlar hemorragia e suturar a laceração do couro cabeludo, fazer profilaxia antitetânica e transferir para serviço com TC e neurocirurgia, dado o alto risco (idoso, LOC, GCS 13, cefaleia).
Take-home message
- TCE leve com GCS 13, idade ≥65 e perda de consciência = TC de crânio e observação hospitalar.
- Na UBS: hemostasia, sutura do couro cabeludo, profilaxia antitetânica e transferência para hospital com TC/neurocirurgia.
- Analgesia segura: Dipirona 1 g 6–8/8h ou Paracetamol 750–1000 mg 6–8/8h. Evitar AINEs/AAS.
- Radiografia de crânio não avalia hemorragia; o padrão é TC sem contraste.
- Ferida de couro cabeludo: irrigar, anestesiar, fechar (grampos/nylon) e avaliar necessidade de dT/IG antitetânica.