Revisão do tema
Âncora de memorização: Intoxicação por salicilatos (ácido acetilsalicílico) cursa com hiperventilação, alteração do sensório, vômitos e pode evoluir para acidose metabólica. A descontaminação imediata com carvão ativado é a intervenção inicial eficaz quando não há contraindicação.
O que é: Toxicidade por salicilatos ocorre após ingestão aguda ou crônica de AAS, provocando estimulação do centro respiratório (alcalose respiratória inicial) e desacoplamento da fosforilação oxidativa (acidose metabólica).
Por que importa: Crianças evoluem rapidamente para acidose, hipoglicemia cerebral, edema pulmonar e disfunção neurológica; manejo precoce reduz necessidade de diálise e mortalidade.
Como identificar: História de acesso a AAS, hiperventilação, vômitos, confusão/convulsão, febre, zumbido; gasometria com alcalose respiratória + acidose metabólica; níveis séricos de salicilato seriados.
Como manejar (prioridades): ABC com ventilação adequada, carvão ativado precoce, alcalinização urinária com bicarbonato quando indicado, correção de hipocalemia, e hemodiálise nos casos graves.
Conduta & Posologia
- Descontaminação inicial: Carvão ativado 1 g/kg (máx. 50 g) VO/NG, dose única, idealmente em até 1–2 horas da ingestão. Considerar dose repetida 0,5 g/kg a cada 4–6 h em intoxicação significativa por salicilato devido à recirculação entero-hepática, se trânsito intestinal preservado.
- Alcalinização urinária (se sintomas/toxicidade moderada a grave ou níveis elevados): Bicarbonato de sódio 1–2 mEq/kg IV em bolus, seguido de infusão com 150 mEq de bicarbonato em 1 L de SG5% a 2–3 mL/kg/h; meta: pH urinário 7,5–8,0 e pH sérico 7,45–7,55. Manter K+ > 4,0 mEq/L.
- Indicações de hemodiálise (qualquer um): alteração neurológica grave (confusão persistente, convulsões, coma), acidose metabólica refratária, insuficiência renal, edema pulmonar, níveis séricos muito elevados (ex.: > 90–100 mg/dL na intoxicação aguda) ou deterioração clínica apesar da alcalinização.
- Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Toda criança sintomática deve ser internada. UTI se necessidade de alcalinização contínua, ventilação avançada, convulsões, acidose significativa, risco de diálise ou rebaixamento do nível de consciência.
- Contraindicações ao carvão: Comprometimento de via aérea sem proteção, íleo/paralisia intestinal, risco de aspiração. Se rebaixamento do sensório, proteger via aérea antes de administrar.
- Efeitos adversos relevantes (carvão): náuseas, vômitos, constipação; pneumonite aspirativa se aspiração.
- Ajustes especiais: Carvão não requer ajuste em DRC/idosos; monitorar balanço hídrico e eletrólitos na alcalinização. Em DRC, maior probabilidade de hemodiálise precoce.
- Monitorização e reavaliação: Níveis séricos de salicilato a cada 2–3 h até queda sustentada; gasometria, eletrólitos (K+, bicarbonato), glicemia capilar seriada; débito e pH urinário; vigilância respiratória. Evitar intubação sem manter hiperventilação (após intubação, ajustar volume/minuto alto para não piorar acidemia).
Discussão das alternativas
✅ A) carvão ativado.
Alternativa correta. É o agente de descontaminação de primeira linha na ingestão aguda de salicilatos, se administrado precocemente e sem contraindicações. Reduz absorção e pode ser repetido devido à recirculação entero-hepática dos salicilatos.
❌ B) N-acetilcisteína.
Alternativa incorreta. Antídoto específico para paracetamol, não para salicilatos. No salicilismo, o manejo específico é alcalinização urinária e, se grave, hemodiálise, além do carvão precoce.
❌ C) xarope de ipeca.
Alternativa incorreta. Emese induzida está contraindicada em intoxicações modernas: eficácia duvidosa, risco de aspiração e atraso de terapias efetivas (carvão/bicarbonato).
❌ D) atropina.
Alternativa incorreta. Útil em bradicardia/vagotonia e antídoto adjuvante em intoxicação por organofosforados. Não tem papel na toxicidade por salicilatos.
Take-home message
- Salicilismo típico: hiperventilação + vômitos + alteração do sensório; pensar em AAS se há acesso domiciliar.
- Descontaminação imediata: Carvão ativado 1 g/kg VO/NG (considerar doses repetidas).
- Terapia específica: Alcalinização com bicarbonato e correção da hipocalemia; monitorar pH urinário 7,5–8,0.
- Hemodiálise se neurotoxicidade, acidose refratária, insuficiência renal, edema pulmonar ou níveis muito altos.
- Evitar xarope de ipeca e intubação sem manter hiperventilação adequada (risco de piorar acidemia).
- Toda criança sintomática deve ser internada; reavaliar níveis de salicilato a cada 2–3 h até queda sustentada.