Revisão do tema
Âncora de memorização: Lesão peniana verrucosa crônica + mau odor + linfonodos inguinais endurecidos/imóveis = suspeita alta de câncer de pênis (CEC) até prova em contrário.
Regra de ouro: não tratar empiricamente sem biópsia.
O que é: Câncer de pênis (geralmente carcinoma espinocelular).
Fatores de risco: HPV (16/18), fimose, higiene inadequada, tabagismo, inflamação crônica (balanopostites).
Por que importa: Atraso diagnóstico piora estadiamento linfonodal e sobrevida. Biópsia precoce define histologia e guia extensão terapêutica (cirúrgica e linfonodal).
Como identificar: Lesão ulcerada/verrucosa/indurada, crescimento progressivo >3–4 semanas, odor fétido, secreção, sangramento; linfonodos inguinais endurecidos, fixos e indolores sugerem metástase.
Mecânica (fisiopatologia curta): Oncogênese por HPV de alto risco e inflamação crônica promovem displasia e CEC invasivo; drenagem linfática para cadeias inguinais leva a metástase linfonodal precoce.
Conduta & Posologia
- Passo 1 (obrigatório): Biópsia da lesão (incisional/punch em borda da lesão) antes de qualquer tratamento tópico/sistêmico. Enviar para histopatologia e, se possível, HPV.
- Passo 2 (estadiamento inicial): Exame físico completo; considerar penile MRI/US para extensão local e TC abdome/pelve se linfonodos palpáveis. Linfonodo suspeito: PAAF/core guiada por imagem após confirmação do tumor primário.
- Passo 3 (tratamento do primário, após biópsia): Lesões localizadas em glande prepúcio: opções incluem circuncisão, glansectomia ou penectomia parcial conforme T; preservar função quando oncol. seguro. Radioterapia/terapia tópica são adjuvantes/selecionadas, não antes de biópsia.
- Manejo linfonodal (após confirmação): Linfonodos endurecidos/fixos = alto risco (N2/N3): estadiar com imagem e biópsia; discutir quimioterapia neoadjuvante e linfadenectomia conforme diretriz SBU. Evitar “teste” com antibiótico em linfonodo fixo/indolor.
- Higiene e prevenção: Orientar higiene genital adequada e cessar tabagismo. Vacinação HPV conforme PNI quando aplicável.
- Quando há balanopostite clara sem suspeita de neoplasia (lesão recente, regressiva, sem induração): pode-se tratar e reavaliar em 1–2 semanas. Exemplo de esquema: Amoxicilina-clavulanato 875/125 mg VO 12/12h por 7–10 dias + higiene local; candidíase: Clotrimazol 1% creme 2x/dia por 7–14 dias. Não se aplica ao caso por forte suspeita oncológica.
- Contraindicações: Corticoide tópico em lesão peniana indeterminada; adiar biópsia por “tratamento de prova”.
- Efeitos adversos relevantes (exemplos dos fármacos citados):
- Amoxi-clavulanato: GI/diarreia;
- Clotrimazol: irritação local.
- Critérios de internação vs ambulatorial:
- Internar se infecção de partes moles grave, sepsis, retensão urinária, hemorragia ativa ou necessidade de procedimentos cirúrgicos maiores imediatos.
- Caso típico oncológico estável: ambulatorial com biópsia precoce (≤2 semanas).
Discussão das alternativas
✅ A) Solicitar biópsia da lesão em glande peniana antes de indicar tratamento específico.
Alternativa correta. Lesão verrucosa crônica com mau odor e linfonodos inguinais endurecidos/imóveis é altamente sugestiva de câncer de pênis. Padrão-ouro diagnóstico é biópsia (incisional/punch). Tratar sem histologia atrasa o estadiamento e compromete prognóstico. Linfonodo suspeito não deve receber “teste” antibiótico; a sequência é confirmar o primário e estadiar linfonodos com imagem/PAAF.
❌ B) Iniciar tratamento medicamentoso enquanto aguarda os exames sorológicos para sífilis, hepatite e HIV.
Alternativa incorreta. Sorologias podem fazer parte da avaliação global, mas não substituem o diagnóstico histopatológico da lesão. Iniciar antibiótico sem indicação clara protela a biópsia. No contexto de linfonodos fixos/indolores, é conduta inadequada.
❌ C) Orientar correta higienização genital e uso de antibiótico oral associado à pomada tópica com corticoide.
Alternativa incorreta. Higiene é recomendável, porém corticoide tópico e antibiótico empírico em lesão suspeita de neoplasia são contraindicados antes de biópsia, pois mascaram sinais e atrasam diagnóstico.
❌ D) Orientar higienização genital, uso de medicação tópica e tratamento da parceira sexual para evitar recidiva.
Alternativa incorreta. A hipótese principal não é IST ativa tratável empiricamente, e sim neoplasia. Não há fundamento para “tratar parceira” nesse contexto. O passo crítico é biópsia imediata.
Take-home message
- Lesão peniana crônica verrucosa/ulcerada + linfonodo inguinal endurecido/imóvel = suspeita alta de CEC de pênis até prova em contrário.
- Regra de ouro: biópsia antes de qualquer tratamento tópico ou sistêmico.
- Linfonodo fixo/indolor não é para “antibiótico de prova”; requer estadiamento com imagem e PAAF/core após confirmar tumor primário.
- Evite corticoide tópico e atrasos diagnósticos em lesão peniana indeterminada.
- Tratamento definitivo é cirúrgico oncológico (circuncisão/glansectomia/penectomia parcial) conforme T, com manejo linfonodal direcionado pelo estadiamento.
- Higiene genital adequada e cessação do tabagismo são adjuvantes importantes; vacinação HPV conforme PNI.