Revisão do tema
Âncora de memorização: Uretrorragia + globo vesical + fratura pélvica/desalinhamento pélvico = forte suspeita de lesão uretral.
Sondagem uretral é contraindicada. A derivação imediata é por cistostomia suprapúbica.
O que é: Lesão uretral traumática (geralmente posterior) associada a fratura pélvica. Repercussão: retenção urinária, risco de extravasamento urinário e infecção.
Por que importa: A sondagem uretral pode agravar a lesão, causar falsa via e sangramento. A conduta correta evita complicações e permite estabilização do trauma.
Como identificar (clínico-exame): Uretrorragia visível no meato, globo vesical, hematoma perineal/escrotal, próstata "alta" ao toque retal (nem sempre presente), dor pélvica e desalinhamento pélvico.
Como manejar (sequência em prova): ATLS (A–B–C) com estabilização pélvica; não sondar uretra; derivar por cistostomia suprapúbica; após estabilização, confirmar lesão com uretrografia retrógrada e planejar reparo urológico.
Conduta & Posologia
- Derivação urinária imediata: Cistostomia suprapúbica percutânea guiada por USG, bexiga cheia e técnica estéril. Evitar sondagem uretral na suspeita de lesão.
- Profilaxia antibiótica perioperatória: Cefazolina 2 g IV dose única 30–60 min antes do procedimento. Ajuste em DRC (ClCr < 30 mL/min): 1 g IV.
- Analgossedação (exemplos seguros em trauma hemodinamicamente estável): Fentanil 0,5–1 mcg/kg IV lento + Cetamina 0,2–0,3 mg/kg IV (dissociativa baixa). Monitorizar via aérea e PA.
- Exame diagnóstico após estabilização: Uretrografia retrógrada para confirmar topografia da lesão antes de qualquer tentativa de realinhamento.
- Contraindicações/alertas: Coagulopatia não corrigida para cistostomia; bexiga vazia (risco de lesão intestinal); ferida penetrante no trajeto. Sondagem vesical uretral é contraindicada na presença de uretrorragia e fratura pélvica.
- Efeitos adversos relevantes: Infecção do trato urinário e do sítio de cistostomia, extravasamento urinário, lesão intestinal (rara com USG).
- Critérios de internação/UTI vs ambulatorial:
- Politrauma com fratura pélvica/lesão uretral = internação.
- UTI se instabilidade hemodinâmica, necessidade de transfusão maciça, TCE grave, ou lesões associadas graves.
- Monitorização/reavaliação: Débito urinário horário pela cistostomia, sinais de infecção local, hematúria, necessidade de imagem complementar nas primeiras 24–48h.
Discussão das alternativas
✅ A) Cistostomia.
Alternativa correta. Na suspeita clínica forte de lesão uretral (uretrorragia, globo vesical, hematoma perineal, fratura pélvica), a derivação urinária indicada é cistostomia suprapúbica. Evita agravo da lesão e permite estabilização e diagnóstico definitivo posterior (uretrografia retrógrada).
❌ B) Uretrocistoscopia.
Alternativa incorreta. Não é o procedimento inicial em politrauma com suspeita de lesão uretral. A endoscopia exige recursos, sedação e pode piorar o trauma; o primeiro passo é derivar por cistostomia e, depois, investigar com uretrografia retrógrada/avaliação urológica.
❌ C) Laparotomia exploratória.
Alternativa incorreta. Indicada apenas se houver instabilidade hemodinâmica/peritonite ou lesões abdominais que exijam exploração. O paciente está estável; a queixa urológica é manejada com derivação suprapúbica.
❌ D) Sondagem vesical de alívio.
Alternativa incorreta. Contraindicada na presença de uretrorragia e fratura pélvica/desalinhamento pélvico pela alta suspeita de lesão uretral. Risco de falsa via, hemorragia e piora da lesão.
Take-home message
- Uretrorragia + globo vesical + fratura pélvica = suspeita alta de lesão uretral; não passar sonda uretral.
- Procedimento inicial para derivação urinária: cistostomia suprapúbica.
- Diagnóstico de confirmação/topografia após estabilização: uretrografia retrógrada.
- Red flag: Sondagem uretral é contraindicada com uretrorragia e fratura pélvica.
- Profilaxia: Cefazolina 2 g IV dose única na cistostomia; ajustar em DRC.